Minuto49

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O midrange está morto?


Um dos recursos mais glamourizados nos anos 90 e início dos 2000, muito empregado por estrelas do passado e consagrado por Michael Jordan e Kobe Bryant, está em extinção.  O mid-range¹, ou jogo de média distância, já não faz mais parte do repertório dos jogadores contemporâneos.

Segundo estatísticas do NBA.com, os arremessos tentados entre o garrafão (no gráfico abaixo, Área Restrita) e a linha dos três pontos caíram de 50,2% do total de arremessos tentados (FGA²) para apenas 31,4%, entre a temporada de 2003, que muitos especialistas acreditam ser a última temporada do basquete pré-moderno, e a temporada 2019.



O QUE ISSO MUDA PARA O ESPECTADOR?

Esses números só contam parte da história, é preciso também considerar o quanto nós espectadores sentimos com essa mudança, a percepção causada pelo volume de jogo do midrange e por que muitos acreditam que o jogo ficou mais chato.

Como exemplo, vamos comparar o jogo em que Michael Jordan marcou 63 pontos contra o Boston Celtics, nos playoffs de 1986, com os 60 pontos anotados por Klay Thompson em menos de 30 minutos, na temporada de 2016.


O primeiro ponto a se destacar é quanto tempo a mais Jordan levou para chegar à marca sexagenária. De fato este jogo é uma exceção, mas se olharmos para a média histórica da liga, os atletas demoram pouco mais de 42 minutos para chegarem à mesma marca, o que é mais do que um quarto de diferença para Klay. Também é visível a quantidade a mais de jogadas que Jordan finalizou, tendo arremessado a bola 41 vezes e indo para a linha de lance-livre outras 21, sem tentar sequer um arremesso de longa distância.

Inevitavelmente as câmeras de Tv estiveram por todo esse tempo focadas no astro dos Bulls, o que faz ele ter muito mais exposição e consequentemente parecer produzir mais. Outro fator que contribui para isso é todos os seus pontos terem vindo de jogadas de drible, diferentemente de Thompson, que normalmente é acionado apenas como um catch-and-shooter³, ou seja, apenas recebe e arremessa. Isso faz com que MJ passe ainda mais tempo com a bola nas mãos. 

Essa exposição maior, a “briga” para conquistar cada ponto (apenas 3 de seus 41 arremessos não foram contestados) e a quantidade de vezes que o jogo parou por faltas em MJ, acabam transmitindo aos olhos do espectador uma maior dificuldade para tal feito, mesmo que isso não seja necessariamente verdadeiro. As jogadas rápidas do time de Steve Kerr, muitas vezes se aproveitando do contra-ataque e pegando as defesas desestruturadas, passam uma sensação de menor dificuldade individual e ofuscam os esforços de seus jogadores, que acabam por ter suas performances tachadas de mecânicas, repetitivas e chatas por torcedores mais saudosistas, que deixam passar despercebidas tamanha eficiência e riqueza do basquete moderno.


E PARA O JOGO, O QUE É MAIS VANTAJOSO?

O que pudemos aprender com a mais recente dinastia liderada por Stephen Curry e a forma como eles mudaram o jogo?  Para os técnicos e especialistas diretamente ligados ao esporte, a busca incansável por maior eficiência é o que os move, mas como a redução do midrange pode contribuir para isso?


Se olharmos para a média de pontos produzidos para cada tipo de arremesso, tudo ficará mais claro. Em média, um time anota 1,1 ponto por posse de bola. A cada tentativa, um arremesso de 3 pontos produz 1,15 ponto, com aproveitamento de 38,5% dos arremessos. Bandejas são ainda mais eficientes, produzindo 1,25 ponto por tentativa com um acerto de 63% em média, mas a jogada mais certa ainda são os lances-livres, que além de serem aproveitados em 76,6% das vezes, produzem 1,5 ponto por tentativa.


Como podemos notar na imagem acima, a distância do arremesso mais curto da linha de três e o arremesso mais longo de média distância é muito pequena, cerca de 30 centímetros. Porém, se você optar por uma bola fora da grande área, será 50% mais eficiente.


Para não dizer que levei ao extremos da jogada de médio, abaixo podemos notar o quanto ainda é ineficiente os arremessos de 18 pés (0,9 ponto por tentativa), sem contar que nenhum jogador consegue entrar nessa área com muita folga, principalmente com o perímetro bem espaçado para evitar os arremessos livres de três. E então começamos a ter vantagem a partir dos arremessos de close range4 (6 pés), onde cada tentativa produz o mesmo 1,15 ponto que é possível obter pelas bolas longas.

Sendo assim nos deparamos com as defesas bem espaçadas para não permitir o excesso do uso desta vantagem em não precisar carregar tanto a bola para arremessar, enquanto técnicos incentivam suas estrelas a buscarem cada vez mais os pick-and-rolls5 e provocarem troca nas defesas adversárias, em busca de um mismatch6 para um arremesso de três pontos, infiltrar para cima de um jogador menos ágil ou cavar uma falta.

Foi adotando jogadas que encaixam nessas estatísticas que os técnicos ajudaram a liga a bater o recorde de offensive rating7 médio da história, em cada um dos últimos 3 anos. E por isso vemos o surgimento de um dos mais eficientes jogadores ofensivos na história, James Harden, que adota exatamente essa metodologia: abusa das bolas de longa distância, infiltra com frequência e sempre busca parar na linha do lance-livre. E assim que conseguiu produzir apenas 1 ponto a menos que Jordan em sua melhor temporada, só que jogando 4 minutos a menos que a lenda de Chicago.

E SE VOCÊ TIVER BONS CHUTADORES DE MÉDIO?

Bem, então você provavelmente estará entre os 15 melhores ataques da liga, sem dúvida. Aqui vou considerar exímios arremessadores de médio aqueles que acertam ao menos 44% desta distância, com o mínimo de 3 tentativas, em média, por jogo.

              Foto: (FMG são os arremessos feitos, FGA são os tentados e o FG% é a porcentagem de acerto)

Todos os times que têm pelo menos dois jogadores nesta lista (San Antonio, LA Clippers, Denver Nuggets e OKC) estiveram entre os 10 melhores ataques da liga em algum momento da temporada, sendo que apenas Thunder (14º) e Spurs (11º) não se encontravam lá quando a temporada foi interrompida. 

Isso porque se você puder adicionar um arremessador de médio de elite ao seu time, estará potencializando o esquema tático moderno explicado no início do texto.  Pense, as defesas seguem abertas para cobrir o perímetro e evitar o arremesso fácil de 3PT, só que diante de um bom arremessador de médio a hora que o pick and roll for feito, o defensor que ficar na sobra não poderá estar a dois passos do atacante na tentativa de cobrir com mais agilidade a infiltração, pois permitirá que ele produza quase 0,95 ponto por tentativa. E veremos cenas como esta cesta, sem contestação, de Trae Young:



Em alguns casos, quando o atacante além de um arremessador de médio de elite, também é um exímio finalizador de curta distância/bandeja é necessário que haja a dobra para que um marcador pressione-o na média distância, enquanto o outro se mantenha dois passos atrás para prever qualquer infiltração. Mas aí é que a bola de três pontos volta ao protagonismo:


Kawhi Leonard e os Raptors deram uma  aula no título passado, abusando dessa combinação de pick and rolls para o jogo de médio, e quando bem marcado, liberando algum companheiro para que ficasse livre fora da área ou embaixo da cesta.

ENTÃO, É O FIM PARA O MIDRANGE?

Não, mas não veremos mais o jogo de médio sendo abusado como antigamente, e sim restrito a alguns times ou alguns jogadores e que muitas vezes irão usá-lo apenas para atrair a defesa do perímetro ou do garrafão e buscar um companheiro livre, já que mesmo para os jogadores considerados de elite neste quesito, o midrange representa em média apenas  26,5% do seu jogo. 

Mesmo quando usados na conclusão das jogadas,  veremos com cada vez menos frequência aquelas longas bolas de 2PT, como faziam Kobe, MJ, McGrady, Pierce e outros.

Mas antes de recorrer ao saudosismo, dizendo que o jogo ficou chato ou que temos apenas jogadores arremessando de três, pense em como conseguimos, ao longo da última década, transformar o papel de certos recursos ofensivos, aprimorar outros e  dessa maneira, vivenciarmos hoje a melhor época ofensiva da história. 

Então, aproveitemos!

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  1. Mid Range = É o jogo de média distância. Todo arremesso que está dentro da área dos 3PTs e fora do garrafão é considerado mid range.

  2. FGA = Field Goals Attempted ou Arremessos tentados

  3. Catch-and-shooter = É o arremesso que o atacante dá assim que recebe a bola, sem ao menos batê-la.

  4. Close Range =  o jogo de curta distância. Todo arremesso que está dentro garrafão é considerado close range.

  5. Pick-and-rolls = Também chamado de ball screen  ou screen and roll, é uma jogada ofensiva no qual um jogador faz uma parede/corta-luz (pick) para um companheiro de equipe que segura a bola e depois se move em direção à cesta (roll) para receber um passe .

  6. Mismatch =  É a situação onde um jogador ofensivo tem vantagem sobre um jogador ofensivo. Por ex: Em uma troca, LeBron James fica dentro do garrafão sendo marcado pelo armador do time adversário.

  7.  Offensive Rating = É uma estatística usada para medir o desempenho ofensivo da equipe ou a eficiência de um jogador individual na produção de pontos para o ataque.